Livros de Sangue, de Clive Baker

“Cada corpo é um livro de sangue: sempre que nos abrem, a impressão é vermelha”.

Que tal?

E esta: “Calloway nada mais podia fazer que não fosse olhar para aquele cadáver que o estava chupando”.

Com certeza, esta: “Cada homem, mulher e criança naquela torre de horrores era cego. Viam somente através dos olhos da cidade. Não tinham mente pensante, a não ser para pensar os pensamentos da cidade. E acreditavam que eram imortais, na sua força implacável e pesada. Vasta, louca e imortal.”

Falar de Clive Barker sem citá-lo é quase uma heresia. O cara é mestre num gênero de horror pouquíssimo (bem) explorado pela literatura: o horror que choca, enoja, repugna. O horror que sangra. Um gênero completamente oposto ao de Stephen King, ser supremo da ficção de horror da segunda metade do século passado. Enquanto King apela à psicologia, à moral, à crítica social; Baker age como um açougueiro metódico: desmembra pedaço por pedaço da nossa sanidade e nos joga num turbilhão de sangue, tripas, e o que mais vier.

Enquanto os autores da tradição de Poe (King entre eles) constroem lentamente o espaço e o tempo de suas histórias, reservando o melhor para o final, Baker e seus comparsas (Ramsey Campbell e principalmente James Herbert), pegam o ônibus lotado no meio da estrada, à 100km/h e aceleram até o limite – de preferência jogando-o contra um precipício a fim  de causar o maior número de mortes possíveis. No conto em que Baker mais lembra KIng (O Yattering e Jack), sem buchos abertos e com uma viradinha na trama digna de EC Comics, Baker é infinitamente superior. Em Baker, uma regra das histórias de terror é quebrada: ninguém é punido por sua falta de moral. Pelo contrário, às vezes até se é recompensando (como no caso de Kaufman em “O Trem de Carne da Meia-Noite”). Os moralistas e os bem-aventurados, ah, esses sim… que sejam punidos todos eles! O clímax das histórias de Baker lembra Lovecraft. Só há duas saídas: a morte ou a loucura. Nada mais justo.

Nada mais apropriado, também, do que “Livros de Sangue” para o título desta coletânea de contos. É sangue o que pinga de página após página. E então é possível compreender qual mente doentia poderia conceber Hellraiser e seus cenobitas, ou Raça das Trevas. Mas o melhor – o melhor MESMO – de Baker é sua literatura. É nela que ele explora todo um arsenal de estilo, maluquice e extremidades que deixariam até Takeshi Miike enojado.

Arrependo-me, de agora em diante até o dia de minha morte, por não ter lido Clive Baker antes. Para o autor inglês, não posso deixar de desejar-lhe que mantenha o poder por muito tempo; que por muito tempo possa vomitar luz sobre a cabeça de nós, os condenados.

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~ por B. Haunted em 2007, setembro 16.

Uma resposta to “Livros de Sangue, de Clive Baker”

  1. Eu acho Clive Barker bem bacana. Meu conto favorito é “O Trem de carne da meia noite”, esse é destruidor. Mas achei o negócio bastante mal traduzido, na verdade – tive oportunidade de ler trechos dos contos em inglês, e eles parecem ser muito mais chocantes e assustadores do que nossa traduçãozinha furreca permite que sejam. E embora eu seja um fã de Stephen King (sim, que venham os tomates!), eu atualmente acho que os melhores trabalhos dele são os de não-terror =P

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