Slasher Movies, Parte I

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Não gostaria de topar com um sujeito desses na noite…

Os slashers movies foram a febre do terror juvenil na década de 1980 (mais ou menos como é a febre do pornô-tortura hoje em dia) e envolve, tipicamente, um psicopata mascarado que caça e mata suas vítimas de formas extremamente violentas e sádicas.

As vítimas são, via de regra, adolescentes ou jovens adultos que vivem numa cidade pequena do interior dos Estados Unidos, e encontram-se longe da civilização. Freqüentemente, o assassino ataca numa festa, onde todos estão envolvidos em sexo antes do casamento, abuso de álcool e de drogas, e nosso psicopata fará todos estes desajustados pagarem caro por isso! (Lembrem-se, queridos, o gênero terror é o mais reacionário de todos).

Todo slasher movie acaba com uma sobrevivente que, de alguma maneira, encontra em si poder suficiente para enfrentar o psicopata. Ela sofrerá danos psicológicos graves, que a marcarão por toda sua vida e, apesar de mais raro, pode vir a sofrer danos físicos. Após liquidar com a ameaça do psicopata, ela descobrirá que não o matou, mas apenas retardou seu avanço. De uma maneira ou outra, o psicopata slasher é dotado de sobre-vida.

O psicopata

Num slasher movie, o assassino quase sempre usa armas não-convencionais, como motosserras, foices, garras, espadas. Raramente – pra não dizer nunca – utiliza armas de fogo. Em 90% dos casos conhecidos, o slasher é do sexo masculino. A mais recente exceção sendo Lendas Urbanas; a mais clássica sendo o primeiro Sexta-Feira 13, ainda que, em ambos os casos, sejamos levados a pensar que se trata de homens.

Quase sempre existe uma história que explica o porquê do assassino fazer o que faz. Esta história pode conter um background de abusos ou injustiça contra o psicopata, que no futuro extravasará suas frustrações liquidando um certo grupo-alvo. Este grupo-alvo muito freqüentemente têm a ver com as frustrações do próprio assassino, mas não raro pode ser só gente com má sorte, no local errado e na hora errada.

Muitas vezes – e muito convenientemente – o fato traumático ocorre próximo a uma data facilmente lembrada pela população. Confira títulos como O Primeiro de Abril dos Mortos, Black Christimas, My Bloody Valentine e por aí vai. Resumindo, o psicopata não é apenas um psicopata – é um psicopata envolvido numa vingança.

O slasher é capaz de aguentar a maioria dos ataques de suas vítimas, devido a poderes sobrenaturais explícitos ou implícitos. Assim, após ser eletrocutado, esfaqueado, baleado, esmagado, afogado e ter sofrido quedas horríveis, ele sempre se levanta para cumprir sua missão: matar todo mundo. São dotados de um incrível poder de locomoção, que os permite sempre estar à frente de suas vítimas, parecendo que ocupam mais de um lugar no espaço. Exatamente por este ótimo preparo físico, eles parecem que calmamente caminham enquanto suas vítimas correm desesperadamente…

As vítimas

A Sobrevivente/Heroína – quase sempre apresenta as seguintes características: 1) é morena, 2) é alta, 3) é virgem. Freqüentemente tem um nome unisex (Sidney, Billie, Teddy, Taylor). A Sobrevivente nunca será a garota que ficará nua durante o filme – lembrem-se, ela é virgem e recatada. Além disso, evita os vícios dos demais personagens (sexo antes do casamento, álcool e drogas). Por ser a primeira personagem a ser apresentada no filme, você pode ter certeza de que ela durará até o final. Possui uma enorme força de vontade – que pode balançar durante algumas partes do filme – e valores morais sólidos. Pode ou não possuir um envolvimento prévio com o assassino, um passado negro que envolve a ambos. Por ser a força narrativa da história, ela será provida de inteligência, curiosidade e senso de dever. Ela poderá se assustar, mas nunca entrará em pânico, mantendo, mesmo nas piores situações, uma visão clara dos acontecimentos. Tentará de todas as formas salvar seus amigos mas, restando sozinha, utilizará de sua reserva de forças para acabar com a ameça do psicopata. A não ser – claro – que ela seja a psicopata.

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Jamie Lee Curtis é a Sobrevivente de vida mais longa no gênero

O Nerd – é a maior contradição de um slasher movie. Convenhamos: quantas vezes você já viu uma garota responsável (ou lésbica), um boyzinho, uma patty, um negro e um nerd todos juntos na mesma festa? De qualquer forma, o Nerd possui a função de acrescentar humor à narrativa, quebrando o suspense do filme. O Nerd é uma carta fora do baralho do psicopata: ou ele é o primeiro ou o último a morrer. Quando é o primeiro, é por que descobriu o que estava acontecendo e tentou avisar a sobrevivente. Quando é o último, é por que sacrificou-se para que a sobrevivente pude-se hã… sobreviver.O Saco de Hormônios – Também conhecido como Jock, Fortão ou Boy. Não acrescenta nada na narrativa, e seu único objetivo é levar uma das garotas (normamente a Cheerleader) para outro quarto para “brincadeiras à dois”. Óbvio que isto é moralmente errado e, por isso mesmo, ele acabará punido.

A Cheerleader – Ela é praticamente um corpo. Um corpo para ser morto, mas primeiro um corpo para ser exibido. Inevitavelmente participará da cena de sexo gratuito do filme e pode acabar morta vestindo apenas suas roupas íntimas. Dependendo do filme, ela será requisitada para mostrar seus seios mais de uma vez antes de ser morta. Ela é SEMPRE loira, fala as coisas mais óbvias, é desprovida de qualquer traço de inteligência e tem uma voz tão meiga que é capaz de deixar o psicopata em dúvida de que vale a pena matar um bicho desses. Mas, hã, essa dúvida não durará mais do que três segundos hehe.

O Negão – A única diferença deste personagem para os outros do grupo é que ele é… hmm… negro. É um mito do gênero terror que o Negão é o primeiro a morrer, mas na verdade ele é o segundo. O primeiro sempre é o Nerd ou alguém relacionado com a Sobrevivente – o pai, a prima, a bibliotecária, a professora, o vizinho, etc – ou ainda alguém relacionado com o psicopata – o guarda da prisão, o cientista maluco, etc. O Negão será um dos únicos a entender o que está acontecendo e, por isto mesmo, será sempre tachado de “cagão”. Ele ficará com medo de ir naquela casa onde um bando de caras foi morto no último ano, por exemplo. O que leva a constatação de que ele é o único cara são. Como será desacredito e execrado pelo resto do grupo, o Negão encontrará sua fuga nas drogas. E, é claro, pagará por isso.

O Abnegado – Abnegado, nesse contexto, é um reflexo de tudo que é bom na humanidade. Alguém que está disposto a defender outros do mal, mesmo que seja um grande sacrifício pessoal. Ele pode ou não saber quem o psicopata é e o que este está fazendo. Nada – nem um sério ferimento – vai pará-lo de tentar impedir o psicopata. Ele pode, assim como a Sobrevivente, ser um link para as seqüências do slasher movie.

Fróide explica!

A crítica de cinema Carol J. Clover cunhou a expressão “Final Girl” (que aqui traduzo como “A Sobrevivente”) em seu livro Men, Women and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film. A questão principal de Clover é: “se a maioria do público de um slasher movie é masculina, por que o herói é uma mulher?”. Hmmm…A premissa básica é de que o psicopata, em muitos casos, é um homem feminilizado, como Norman Bates em Psycho e Jamie Gumb em O Silêncio dos Inocentes. Até o final do filme, a Sobrevivente tende a se tornar mais e mais masculinizada, ao deixar de ser medrosa e torna-se agressiva. Poderá assumir também características físicas mais masculinas. Além disso, ela se armará de uma arma fálica, como um porrete, um machado, uma faca ou uma motossera.

Não obstante, mais de uma vez a heroína, para confundir o psicopata, agirá como sua namorada, agraciando-o com uma voz suave e sexualmente provocante ou agirá como sua mãe, xingando-o quando ele é bruto. Isso só é possível quando existe uma conexão entre o psicopata e a Sobrevivente.

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Michael Myers espreitando sua próxima vítima…

Para salvar-se, diz Clover, a Sobrevivente fará uma ferida “vaginal” no psicopata: qualquer corte sem perfuração apresenta feridas vaginais. Sendo as armas disponíveis todas cortantes (e fálicas), o tipo de ferida é implícito.Clover argumenta dizendo que, para um slasher movie ser bem sucedido, o herói precisa ser uma mulher pois apenas uma mulher é capaz de passar de um estágio de pânico total para o de heroismo total sem parecer fraquejar em nenhum momento desta caminhada. Um homem apavorado no início, mesmo que até o fim do filme vença seus temores e enfrente em igualdade o psicopata, perderá a simpatia do público, que aceita a masculinização, mas repreende a feminilização. E, convenhamos, um sujeito que grita sem parar durante vinte minutos é bem mulherzinha he, he, he.

Isso pode ser apenas uma bobagem freudiana – e eu reluto em resumir tudo em sexo. Por isso apresento uma outra possibilidade de interpretação dos slasher movies: o herói é uma mulher pois apenas desta forma podemos nos desculpar por nos satisfazermos a cada vez em que uma das garotas do filme é aterrorizada, torturada e brutalmente morta pelo psicopata, he, he, he.

Na próxima parte: a origem do gênero, Dementia 13 de Coppola e Sei donne l’assassino de Mario Bava.

~ por B. Haunted em 2007, Agosto 8.

2 Respostas to “Slasher Movies, Parte I”

  1. Meu slasher favorito é O PÁSSARO SANGRENTO, do discípulo do Argento, Michele Soavi. Grande filme.
    Esse do Bava que tu pretende falar é o Bay of Blood? Bava era um homem do Giallo até fazer o filme que gerou todos os clones americanos…

  2. Esse blog está humilhante. Cultura de horror em estado bruto. Sério mesmo, cara – parabéns, tá muito foda.

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