Pulse (2006)

Em Pulse, temos o upgrade da metáfora do zumbi: há o vírus (agora de computador), há a doença (que transforma as pessoas em almas penadas), há o contágio extremamente rápido, o caos e as zonas de resistência criadas pelo Exército. Mas também há uma metáfora bastante atual: a solidão propiciada pela nossa “era da informação”.
EU DIGO: 6/10
Que tem de bom?
- Visual bacana, com fotografia sombria
- Monstros pra lá de interessantes e alguns bons sustos
- Premissa ótima: atualização do mito do Zumbi
Que tem de ruim?
- História poderia ser mais bem explorada
- Personagens muito superficiais
- Direção principiante que corta o clímax de várias cenas
- Mais um remake de horror oriental
Desde que George A. Romero adaptou o livro de John A. Russo no clássico de 1968 Night of Living Dead, os zumbis têm sido a metáfora para o desenvolvimento tecnológico da humanidade e os (des)avanços proporcionados pelo mesmo, principalmente a homogeinização da sociedade. Quando o público perdeu sua inocência e o seu medo de monstros, passou a olhar para dentro de si, e ver no homem o lobo do homem. O mito em torno do zumbi passa do pressuposto de que, se a morte é inevitável, o que vem depois é melhor ou pior do que a vida na Terra? “Quando não há mais espaço no Inferno, os mortos caminharão sobre a Terra”, é a clássica tagline de Dawn of the Living Dead (Romero, 1978). Também compõe o mito do zumbi a ciência escrita em linhas tortas que, inevitavelmente, libera um “vírus” mais mortal do que imaginava. Daí em diante, o vírus espalha-se ligeiramente, levando ao caos completo a civilização em poucos dias. Os humanos que não foram vertidos em zumbis encontram-se no degrau mais baixo da ciclo predatório – de predadores tornaram-se presas. A metáfora é maravilhosa.
Em Pulse, de Jim Sonzero, a metáfora do zumbi está toda lá. Há o vírus (vertido para o vírus de computador), há a doença (que transforma as pessoas em fantasmas, não zumbis), há o contágio extremamente rápido, o caos, e as zonas de resistência criadas pelo Exército. Mas também há – além de todos estes elementos que já por si renderiam um belo filme (de zumbis) – uma metáfora própria: a solidão proporcionada pela nossa “era da informação”.

Pulse é a refilmagem de Kairo (2001), que confesso não ter assistido, mas os comentários é de que se trata de um filme realmente assustador – mais assustador que o Ringu original. Aliás, a fotografia sombria, com uma predominância de tons de cinza, a pouca iluminação e o ambiente opressivo de Pulse é bem ao clima destas produções japas.
Pulse é dirigido por Jim Sonzero em sua primeira superprodução. Apesar de algumas derrapadas com cenas desnecessárias para a história, Sonzero faz uma direção sóbria: garante bons ângulos e boas seqüências, como a do acidente de carro de Mattie e Dexter. Porém, sua pressa em mostrar os monstros acaba por “afundar” várias cenas de tensão. Parece que Sonzero é impaciente em aumentar o clima de expectativa (e o medo) do público, e prefere os gritos assustados das mocinhas indefesas e a catarse da exposição aos calafrios da sugestão. É o caso particular da cena de Christina Milian na lavanderia… Sonzero não deixa de acertar a mão no clima opressivo com que se encontram os personagens principalmente no final do filme, cercados pelos fantasmas – que fazem aparições constantemente em outras cenas, sempre ao fundo.
O filme inicia com Josh (Jonathan Tucker, do remake de Texas Chainsaw Massacre), um rapaz assombrado pelas aparições que mais tarde conduzirão o filme. Atrás de um sujeito chamado Ziegler, Josh acaba “sugado” por uma destas aparições. Josh perde a sua vontade de viver, até que comete suicídio. Somos apresentados então à namorada do suicida, Mattie (Kristen Bell, a Verônica Mars), uma estudante de psicologia que, se sentido culpada pelo que ocorreu com seu namorado, decide investigar as causas que o levaram a tal medida extrema.
<SPOILERS>
Daí em diante as coisas complicam. Aparentemente, Josh era um hacker amador que entrou no sistema de um tal de Ziegler e roubou-lhe um vírus de computador que, na verdade, nada mais é senão a porta para uma outra dimensão povoada por fantasmas. O vírus espalha-se rapidamente por todos os sistemas de computação, tais como satélites, celulares, iPods, Internet, etc. Através de tecnologia wireless, todo o mundo é infectado.
A infecção se dá principalmente através da Internet. Aparece uma mensagem na tela do usuário com a seguinte inscrição: “Do you want to meet a ghost?” (“Você quer conhecer um fantasma?”). Óbvio que, já que este é um filme de terror, todos os indivíduos são idiotas o suficiente para responder “sim” – por mais geeks que sejam, veja bem, porque todos os personagens no filme são geeks de computador. Eis que, então, o sujeito é apresentado a vários vídeos de suicidas gravados em suas webcams bem no momento em que perdem suas vidas. Todos eles infectados pelo vírus, claro.
</SPOILERS>
A metáfora em relação à Internet aqui é boa: geeks conectados são infestados por um vírus que lhes tira a vontade de viver, transformando-os em suicidas que não tem mais nem vontade de levantar-se. Suicídios coletivos através da Internet são fichinha no Japão e motivo de preocupação para as autoridades daquele país. Ano passado, um jovem portoalegrense suicidou-se e avisou suas pretensões em um fórum da rede – inclusive foi apoiado por integrantes dessa message board. Nem só do suicídio é feita a metáfora de Pulse: desde o principio do filme, todos em torno dos personagens fazem uso de celulares, notebooks, iPods, computadores, etc. É o homem protegendo-se dentro de casa dos… outros homens. Mas como proteger-se-á de si mesmo?
Falei que todos os personagens eram geeks? Pois é verdade. Além de Josh (hacker), ainda temos sua namorada Mattie (uma destas garotas que não largam seu celular-último-tipo nem para ir ao banheiro), Stone (um perv virtual), Tim (um gordinho loser) e Dexter (Ian Somerhalder, o Boone de “Lost”, um cara aparentemente viciado em gadgets). A única que escapa um pouco deste “mundinho” é Isabell Fuentes (interpretada por Christina Milian), a melhor amiga e colega de quarto de Mattie.
Que querem os fantasmas? Querem a única coisa que não podem ter: “Vida”, como nos explica o tal Ziegler no fim do filme. Para tanto, alimentam-se da força vital das pessoas, transformando-as em cascas ocas sem vontade de viver. Ok, o suicídio em si não é novidade no reino dos filmes de terror, ainda mais oriental (lembro-me do japa Suicide Club que, pelo menos até o momento, não tem remake anunciado), porém, em Pulse, há um motivo para realmente crer na onda de suicídios. Em Suicide Club (Sono, 2002), o motivo é babaca; em Pulse, a explicação, mesmo que sobrenatural, é mais plausível. Infelizmente, por ser um filme voltado ao público “teen” norte-americano, não tem o choque dos suicídios de Suicide Club. Talvez o original tenha…
Os fantasmas de Pulse lembram muito os mesmos seres descarnados de White Noise (Sax, 2005 – aqui se chama como? Ecos do Além, Gritos do Além ou Vozes do Além?), protagonizado por Michael Keaton. Aliás, pelo menos no Brasil White Noise foi vendido como um filme de horror – o que não é, mas sim um filme que utiliza do fértil terreno do espiritismo para balizar uma história de drama/romance/suspense com algo de sobrenatural. White Noise é um filme razoável, mas todos os sustos que fantasmas malvados que saltam de tevês e computadores poderiam causar estão em Pulse.
Assim como Romero deu vida aos seus mortos-vivos em 1968 como escape para a sociedade da época, Pulse e o seu original fazem o mesmo com a nossa sociedade conectada do século 21. Pretensão comparar Pulse com o clássico de Romero? Talvez. Mas a verdade é que Pulse e o seu original Kairo dão um upgrade no mito de zumbi criado pelo cultuado diretor nova-iorquino. Quem sabe não tenhamos mais filmes de monstros que utilizam a Internet ou as redes de telefonia para propagarem-se?*
PULSE. EUA, 2006. 90min. The Weinstein Company/ Distant Horizons / Neo Art & Logic. De: Jim Sonzero. Com: Kristen Bell (Mattie Webber), Ian Somerhalder (Dexter McCarthy), Christina Milian (Isabell Fuentes). Roteiro: Wes Craven e Ray Wright; Kiyoshi Kurosawa (roteiro original). Produzido por: Michael Leahy e Joel Soisson. Música de: Elia Cmiral. Direção de Fotografia: Mark Plummer. Desenho de produção: Ermanno Di Febo-Orsini e Gary B. Matteson. Direção de arte: Sorin Popescu. Edição: Robert K. Lambert, Bob Mori e Kirk M. Morri. Efeitos Especiais: The Orphanage.
* Quando escrevi este review para Pulse, em novembro de 2006, não tinha idéia do novo livro de King, lançado este mês no Brasil: Celular. Nele, um vírus que torna as pessoas em zumbis é difundido através da rede de telefonia móvel. O fato é chamado – propositalmente? – de “O Pulso”.

cara, muito legal teu blog novo. acredite, mesmo que eu não comente nos posts, eu leio a apoteose do absurdo e gosto bastante. parabéns! horror comanda e vejo que tu entende muito do assunto. abraço.
Hehe!!! Não podia ser mais teu…O blog tá ótimo, e as resenhas impecáveis. Vou colocar no meus favoritos.
Bjão!!!
O template é idêntico ao meu – se bem que, sendo brutalmente honesto, a maioria dos templates do WordPress não são lá essas coisas.
Mas o blog é massa. Vou adicionar lá no meu, e passarei por aqui direto.
O artigo tá excelente, aliás =P